Esses dias escrevi sobre Harbin e o Harbin International Ice and Snow Sculpture Festival, o maior festival de gelo e neve do mundo. E não é que um dia após o post ir ao ar, o Rodrigo, meu noivo, fez uma viagem de ultima hora, a trabalho, para a cidade. Ele foi pego totalmente desprevenido, mas ainda assim, conseguiu conhecer um pouco da cidade e aproveitar o clima super agradável #sóquenão que faz nessa época do ano no nordeste da China. E depois de voltar para casa, com algumas histórias engraçadas e várias dicas úteis sobre o lugar, achei que seria interessante ele fazer um relato, compartilhar com vocês o seu passeio no inverno de Harbin. Afinal, não é todo dia que você vai para um lugar onde chega a fazer -25 graus! 

Espero que essas dicas possam ajudar quem está de viagem marcada para Harbin ou qualquer outro lugar onde o frio é extremo. E também matar a curiosidade daqueles que nunca chegaram a passar por temperaturas tão baixas (como é o meu caso).

harbin china ice and snow festival gelo e neve

Quando aterrissei na China, no início de 2014, para trabalhar em Xiamen, logo me interessei em conhecer vários lugares para onde minha empresa opera, entre eles, Harbin. Claro que os chineses, colegas de trabalho, com segundas intenções, gostam de voar para lá por causa de uma de suas paixões: a comida. E a comida do hotel é uma das preferidas dos colegas locais. E o povo chinês, como vocês já leram no blog, adora comer. Mas, além disso, o hotel fornecido pela empresa é muito bom, com excelentes quartos e instalações, um magnífico SPA e um descanso entre vôos de pouco mais de 24 horas, coisas rara no dia a dia da aviação chinesa.

Entretanto, minha curiosidade ia além da gastronomia. Eu ficava imaginando como seria a vida num lugar com temperaturas negativas de 20, 25 graus. Pra mim, guri criado no Rio Grande do Sul (que quando o jornal Zero Hora anunciava uma geada, todos os gaúchos corriam para Gramado), ir a um lugar desses não deixa de ser uma espécie de aventura.

lago congelado paisagem inverno harbin china

Bom, minha aventura ou expedição, digamos assim, foi totalmente inesperada, sem nenhum planejamento e de última hora mesmo.  Logo para mim, que curto comprar meses antes um  travel guide dos meus destinos de viagens, pesquisar os restaurantes e dicas, conversar com quem já esteve no lugar, para tentar me adequar ao máximo à cultura local. Dessa vez, não teve jeito. Uma mudança na minha escala devido a uma onda de frio na região do Yangtze River, meu voo mudou de um pernoite em Fuzhou, onde faz 10 a 12 graus, para um pernoite na curiosa, pitoresca (e fria!) Harbin. E já na chegada, meus amigos, uma bofetada de -19 graus na saída do aeroporto. E os 3 ou 4 minutos entre a porta do desembarque e o ônibus da tripulação, foram uma das sensações mais diferentes em relação a climatologia que eu já senti… dói na pele, literalmente!

Aqui então já vai a minha primeira dica: roupas especiais para essas condições são essenciais. Você pode até ir para a Sibéria, mas esteja com as roupas, ou o “look” siberiano (para falar a linguagem do China Chic). Material é tudo.

parque esculturas de gelo harbin

Porém, pela viagem repentina,  como comentei, eu estava totalmente despreparado. Nada que pudesse me deixar congelado no jardim, como o Jack Nicholson em “the Shining/O iluminado” (para os mais antigos que assistiram o filme clássico desse atorzasso). Em Harbin,  todos os lugares fechados tem calefação e estão mais do que preparados para essas condições. Mas, eu não iria perder a oportunidade de visitar o Snowland, o parque de esculturas de gelo e depois poder dar meu depoimento ao China Chic, é claro!

Por sorte, o co-piloto do vôo era da região do Tibet, ele era a calma em pessoa e tinha cursado universidade em Harbin. Conhecia bem a cidade e foi meu guia, muito atencioso. No hotel, consegui alugar um casacão, luvas e gorro e partimos então para o ponto mais turístico da cidade e destino de muitos turistas chineses nessa época do ano: os ice cravings de Harbin, um parque enorme a beira do congelado rio da cidade.

Harbin é uma cidade no extremo norte da China, que recebe os frios ventos siberianos e esta muito próxima da fronteira com a Mongólia e com a Rússia, que por sua vez, teve no passado, em períodos distintos,  a concessão da cidade. A cidade é relativamente grande, com algo em torno de 4,5 milhões de habitantes. Tem um bocado de história e chama atenção pela arquitetura gótica e varias construções que marcam a influência russa na cidade, que chegou a ser um das maiores concentrações de europeus no extremo oriente, no inicio do século. Segundo os locais, durante a Guerra Civil russa em 1918, muitos russos se refugiaram na cidade e seus decendentes, até hoje movimentam o comércio, o cotidiano e a cultura local.

Bom, o tempo era curto e era chegada a hora de conhecer a principal atração da cidade: o Snowland e as esculturas de gelo. Meu guia é experiente e sabe todos os atalhos. E o melhor, fala a língua local, o que facilita pra pegar táxi. Após muito frio e 30 minutos no carro, chegamos ao parque. A paisagem é, realmente, muito bonita. Como um grande iglu, com prédios, torres, templos e até a Muralha da China. Tudo feito de gelo e iluminado, dando um visual muito bacana. O frio é de assustar. De 20 em 20 minutos íamos para a praça de alimentação fechada, para tomar um cafezinho quente e esquentar os pés. O chão, todo com gelo, quase congelou meus pés. Só após 40 minutos encontrei um vendedor de botas no parque. Até máscara comprei, porque o vento racha a cara, literalmente. A sensação é horrível. Alias, como em todos os lugares da China, há vendedor ambulante de tudo que é coisa. No caso de Harbin, o que mais se vê a venda são gorros, luvas, botas, casacos e souvenirs…mas como era de se esperar, bem overprice. Mais uma vez digo, vá preparado. Sapatos especiais, luvas especiais, casacos especiais. Não faça como eu, que colocou todas as meias e o único tênis que tinha na mala, de corrida. Escorregava o tempo todo e o sapato, nada adequado, foi o responsável pelo belo tombo de bunda que tomei. O co-piloto ficou todo assustado, enquanto eu ria de mim mesmo…

frio neve inverno harbin

harbin china esculturas de gelo luzes

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snowland esculturas de gelo frio harbin

Mas o lugar é lindo e a experiência vale muito a pena, quando você está bem “equipado”. Haviam muitas famílias e crianças patinando no gelo. Consegui agüentar alguns minutos com as mãos sem luvas para tirar fotos e fazer snaps para o China Chic, mas chega uma hora que você não sente mais as mãos. Uma curiosidade: por causa do frio extremo, meu celular ficava variando a carga da bateria de 90% para 5%, de repente 50%, depois 5…quando eu aquecia ele no bolso, a bateria “carregava” de novo!

Quando a noite cai fica realmente muito frio. A sensação térmica no meio das esculturas de gelo é inarrável. Até meu amigo chinês já está com os lábios roxos. Hora de voltar pro hotel, tomar uma xícara de chocolate quente e ter uma boa noite de sono na calefação, pois amanhã tem mais trabalho pela frente! Valeu a experiência, são esses dias que me fazem ser apaixonado por essa profissão. Até a próxima!